Quando começo um projecto, raramente desenho primeiro as paredes. Desenho a luz. Onde nasce o sol sobre o terreno, que sombras lança a poente, como a manhã difere da tarde — são estas as primeiras linhas de qualquer planta que faço.

A luz é o único material que não consta no caderno de encargos e, no entanto, é o que mais determina como um espaço se sente. Uma sala bem orientada não precisa de quase nada para ser generosa; uma sala mal orientada não se salva com decoração.

Construir é, antes de tudo, decidir como a luz vai habitar um lugar.

Procuro luz indireta, filtrada, que mude com as horas. Um pátio, uma pala, uma clarabóia estreita: pequenos instrumentos para domar uma matéria-prima que é gratuita e infinitamente abundante — e por isso mesmo tantas vezes desperdiçada.

Medir a sombra

Há um trabalho silencioso, feito de maquetas e de modelos solares, que precede qualquer render bonito. É um trabalho de medir a sombra, de antecipar o desconforto do meio-dia de agosto e o conforto de uma réstia de sol em janeiro. É arquitectura no seu estado mais elementar.